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Entre os dias 23 e 29 de Setembro de 2025, a Cidade de
Nova Iorque acolheu a 80a Assembleia Geral da
Organização das Nações Unidas, marcando 80 anos desta
organização nascida dos escombros da segunda guerra
mundial (1939 – 1945). O evento contou com a participação
da maioria dos chefes de Estado e de governo do mundo, que
se encontraram para discutir os assuntos que dominam a
agenda global. Mergulhados em diversas guerras, nações e
Estados têm vindo a posicionar-se e a rearmar-se,
aumentando as incertezas sobre um futuro que se esperava
que pudesse ser portador do triunfo da democracia liberal.
Entretanto, o mundo não se submeteu cegamente à
democracia liberal, sendo que, em todos os lugares, os
seres humanos continuaram a desenvolver as suas próprias
formas de invenção da realidade social. Aquela premonição
de Francis Fukunyama (1992) de que com a queda da URSS,
com a reunificação da Alemanha e com a consequente perda
de influência do socialismo, o mundo assumiria a
democracia liberal como o fim da história, representando
assim o ápice da evolução económica da humanidade, não se
concretizou. A própria democracia liberal caiu em profunda
crise, lembrando a pertinência do questionamento de uma
ideia hegemónica de progresso, inteligentemente ilustrada
já em 1940 por Walter Benjamin (2017) com a imagem do anjo
da história: um anjo de asas bem abertas, olhando
de frente as ruínas do passado com expressão horrorizada,
enquanto o vento do progresso lhe bate no rosto e no peito
e o empurra, de costas, para o futuro.
Chegámos em 2023 ao Centro de Estudos Sociais da
Universidade de Coimbra, vindos de diferentes geografias,
de África, da América Latina e da Europa, para desenvolver
um espírito crítico enquanto estudantes do programa de
Doutoramento em Pós-Colonialismos e Cidadania Global.
Durante esta jornada estudámos, e estudamos ainda,
diferentes processos históricos, sociais, culturais,
políticos e económicos, de todos os continentes do mundo;
lemos autores, debatemos com académicos e artistas,
pensámos e iniciámos as nossas pesquisas nas asas de uma
dupla utopia, por um lado, compreender o mundo em que
vivemos e, por outro, contribuir para as ciências sociais
e humanas.
Uma pequena parte deste nosso trabalho é publicado nesta
28a esta edição da Cabo dos Trabalhos,
Revista Eletrónica dos Programas de Doutoramento do CES
(Centro de Estudos Sociais), em parceria com a FEUC
(Faculdade de Economia), FLUC (Faculdade de Letras) e III
(Centro de Estudos Interdisciplinares), todas da
Universidade de Coimbra.
Este número é um esforço de estudantes de doutoramento
que, por entre as suas pesquisas, ousam desafiar-se a
pensar o mundo numa perspectiva pós-colonial, contribuindo
para ampliar os vários olhares e várias perspectivas
epistemológicas que dialogam e, às vezes, disputam este
campo de estudos designado, sensu lato, por
“estudos pós-coloniais”.
A partir da ideia de George Balandier (2014), de que
muitos países africanos ainda experienciam a “situação
colonial”, traduzida na forma como se constrói a
racionalidade por detrás do olhar sobre estas sociedades,
a nossa abordagem alarga o espectro desta descrição,
argumentando que não se aplica apenas a países africanos,
e a todos aqueles que foram submetidos a colonização, mas
que também se aplica aos países que praticaram a
colonização e que vivem uma “situação colonial”.
Neste sentido, a nossa perspectiva é um esforço de
superar leituras que derivam da situação colonial, tais
como “a superioridade da raça branca”, a “inabilidade dos
povos indígenas em governar-se de forma apropriada”, e o
alegado “despotismo das autoridades tradicionais”
(Balandier, 2014), para adoptar uma abordagem teórica
pós-colonial nos moldes teorizados por Maria Paula Meneses
(2019), como a combinação entre uma reflexão crítica dos
processos históricos e o exame das fracturas que definem
os significados de ser e estar dentro
de um determinado contexto.
Este número divide-se em duas partes, sendo que a
primeira parte, os sentidos das representações
sociais, reúne cinco artigos que, apesar da
diversidade dos tópicos e perspectivas que tentam cobrir,
fornecem bases reflexivas e críticas para compreender o
momento em que se encontra o mundo em geral, e,
particularmente, o momento em que se encontra o mundo
lusófono, por entre a ascensão das extremas direitas,
identidades excludentes, e a forma como essas mesmas
identidades são representadas.
Esta secção abre com o ensaio de Fábio Portugal
Sorrentino, que problematiza, crítica e teoricamente, o
conceito de bolsonarismo enquanto movimento de
extrema-direita liderado por Jair Bolsonaro, ex-Presidente
do Brasil. O autor aponta o bolsonarismo como consequência
do processo de reorganização das direitas brasileiras no
começo do século XXI, estabelecendo um paralelismo com a
reorganização das direitas dos Estados Unidos da América
nas décadas de 1950 e 1960, para encontrar semelhanças e
diferenças, assim como para confrontar teses desenvolvidas
sobre os fenómenos dos dois países.
O ensaio de Judy Cerqueira Moura trabalha com um dos
tópicos de bandeira de movimentos de extrema-direita, como
o bolsonarismo, relacionando-os com questões de
identidade. O seu trabalho, baseado na análise de textos
da literatura brasileira, procura analisar, a partir de um
viés crítico pós-colonial, como o indianismo, presente na
literatura romântica deste país, se constituiu como mito
fundacional da identidade brasileira, e como a criação do
mito do herói indígena contribuiu para o apagamento de
outras etnias, no que pode ser visto, em traços gerais,
como um contexto de exaltação da miscigenação “cabocla”
(mistura do índio com o branco), e diminuição da figura do
“mulato” (mistura do negro com o branco) e do negro.
As representações que se tem das estruturas da sociedade
são processos definidos em contextos de disputa de
narrativas, sendo que as vencedoras tendem a influenciar a
forma como se pensa a dinâmica social e a silenciar todas
as outras. Neste sentido, Celso Braga Rosa questiona as
sobrevivências coloniais que se corporizam ainda na Europa
do século XXI, a partir de artefactos museológicos
extraídos de ex-colónias portuguesas em África mas ainda
na posse de instituições museológicas portuguesas. A
leitura do autor está ancorada na convicção de serem
também estas instituições espaços políticos, onde a
mediação entre o que é visto e quem vê
é ainda feita por pessoas estranhas aos contextos de
produção dos elementos expostos, dando carta branca
a um perpetuar de perspectivas exógenas (e a
silenciamentos e apagamentos), o que por si só justifica a
urgência de uma mediação museológica que desperte o
espírito crítico dos visitantes face a esses objetos.
O ensaio de Angela Guerreiro levanta questões
relacionadas com o corpo negro/a, como o racismo, a
cidadania, a pertença, a dicotomia entre o centro e a
periferia, e as políticas sociais e culturais como
factores provocadores da ausência de artistas de corpos
negros/as no seio das artes performativas portuguesas e em
espaços institucionais (museus, universidades, teatros e
galerias), ocupados maioritariamente por corpos brancos. A
autora refere a resistência e amplificação de vozes e de
espaços de fala (Spivak, 2021; Kilomba, 2016 [2019]),
criados através da produção artística de artistas
negros/as e racializados/as em Portugal.
A questão de como os negros, africanos e
afrodescendentes, são representados, retoma com o ensaio
de Pamela Tavares Monteiro que, apoiando-se em metáforas
como a do fantasma proposto por Margarida Calafate
Ribeiro, e a das frestas propostas por António Simas e
Luiz Rufino, analisa como as corporificações dos discursos
das torcidas organizadas do Clube de Regatas Vasco da Gama
(CRVG) transformou o colonizador do índico – Vasco da Gama
– em símbolo de luta pelas equidades político-sociais,
contrariando a história e elementos oficiais. A autora
realizou uma etnografia virtual pelas quatro redes sociais
oficiais do CRVG (Instagram, You Tube, site oficial do
CRVG e Facebook) entre os anos de 2020 e 2025, e os dados
apontaram que as corporificações dos torcedores
cruzmaltinos são caracterizadas pelas origens coloniais e
contra-coloniais coexistentes na história do clube.
Na segunda parte, Pensar para melhor agir,
reunimos artigos que exploram saberes académicos e
tradicionais produzidos em contextos não hegemónicos,
assim como a sua mobilização para pensar o desenvolvimento
fora dos modelos desenhados pela democracia liberal que,
conforme referimos acima, entrou em crise.
O ensaio de Jessemusse Cacinda analisa o lugar da língua
portuguesa na produção da filosofia africana
contemporânea, problematizando se é possível falar de uma
filosofia africana lusófona. A pesquisa, embasada na
Escola Moçambicana de Filosofia, é de natureza teórica, e
fundamenta-se na análise crítica de textos filosóficos e
na comparação entre antologias de referência, nomeadamente
a de Kwazi Wiredu, editada em 2004, e a de Paulin
Hountondji, editada em 2012. A principal tese do autor é
de que o português actua como língua de comunicação da
filosofia, mas não como língua de devir lógico,
sustentando que a filosofia em português tem circulação e
reconhecimento no continente africano, embora permaneça
invisibilizada fora dele.
Gabriel Benício de Mello investiga o papel dos
conhecimentos e práticas na resolução de conflictos
relacionados com terras, com o meio ambiente, e com
recursos em comunidades tradicionais. O ensaio detalha
diferentes práticas tradicionais e como elas têm sido
aplicadas na gestão sustentável de terras e recursos,
enfatizando casos em que essas abordagens resultaram em
soluções efectivas. Além disso, o ensaio aborda as
barreiras culturais, legais e políticas, à integração
efectiva desses conhecimentos nas políticas de gestão de
recursos, bem como os factores que facilitam essa
integração.
O número fecha com o ensaio de Lygia Zamali Fernandes,
que aborda a dupla dimensão das ações do Estado brasileiro
diante da actuação mobilizada dos povos da floresta, cujas
reivindicações por acesso às políticas públicas no
exercício da sua cidadania foram determinantes para a
criação do programa bolsa verde, como estratégia
de superação da pobreza extrema, e, mais tarde, diante de
limitações dessa experiência. A autora analisa as
fragilidades enfrentadas por esses povos, através de um
diálogo crítico com textos dos estudos pós-coloniais como
“Discurso sobre o colonialismo” de Aimé Césaire, “O amanhã
não está a venda” de Ailton Krenak, e o ensaio “Desafios
ambientais a Sul: O Ubuntu como ética de ligação entre a
comunidade e a natureza”, de Maria Paula Meneses.
Os ensaios aqui reunidos são um esforço deste grupo de
doutorandos e doutorandas para contribuir para uma
compreensão, através das ciências sociais e humanas, do
mundo em que vivemos, e, por meio disso, poder
criticamente perspectivar o futuro. Ao reunir trabalhos
situados em contextos geográfica, social, económica e
politicamente distintos, revindicamos demonstrar que os
estudos pós-coloniais contribuem para uma leitura crítica
do mundo global.
Coimbra, Novembro de 2025
Angela Guerreiro
Celso Braga Rosa
Fábio Portugal Sorrentino
Jessemusse Cacinda
Judy Cerqueira Moura
Referências
Balandier, G. (2014). Sociologia da África Negra:
Dinâmicas das mudanças sociais na África Central.
Edições Pedago.
Benjamin, W. (2017). O anjo da história.
Assírio e Alvim.
Fukuyama, F. (1992). The end of history and last man.
The Free Press.
Meneses, M. P. (2019). Silenciamentos de lutas em
Moçambique: Os jornais O Africano/ Brado Africano como
espaços de reivindicação de cidadania. Caligrama, 24(1),
11-32.
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