Editorial – Edição Especial: 3º Colóquio
Internacional de Pós-graduação em Estudos Feministas e
de Género: Encruzilhadas e Horizontes
As primeiras décadas do século XXI foram marcadas por um
vigor renovado nos movimentos feministas e na consolidação
dos Estudos das Mulheres, Feministas e de Género (EMFG). A
par da conquista de novos direitos e da crescente
visibilidade da subalternidade histórica das mulheres e de
outras identidades marginalizadas, viveu-se um período de
esperança, mobilização e produção coletiva de
alternativas. Iniciativas como o movimento global #MeToo
catalisaram a consciencialização social sobre a violência
e a discriminação de género, reposicionando estas questões
nas agendas políticas e culturais.
No contexto académico português, esse espírito
transformador traduz-se na progressiva institucionalização
dos Estudos Feministas e de Género, que conquistaram
espaços de reconhecimento formal, após décadas de
resistência e desvalorização dentro das universidades. No
entanto, esses avanços não se revelaram lineares nem
isentos de contradições.
A terceira década deste século assiste a uma viragem
preocupante: o crescimento de discursos e políticas
sexistas, antigénero e antidemocráticos ameaça os direitos
arduamente conquistados e visa descredibilizar tanto os
movimentos sociais como a produção académica na área dos
EMFG. A ofensiva contra os estudos de género, os direitos
das mulheres e das pessoas LGBTQI+ tornou-se global,
coordenada e mais sofisticada, exigindo novas estratégias
de resistência, solidariedade e reinvenção política.
É neste cenário que se inscreve o 3º Colóquio
Internacional de Pós-graduação em Estudos Feministas e de
Género: Encruzilhadas e Horizontes, promovido pelo
Doutoramento em Estudos Feministas da Universidade de
Coimbra (FLUC/CES). O colóquio afirmou-se como espaço de
encontro, escuta e articulação entre pessoas
investigadoras em doutoramento que contribuem para a
renovação crítica dos EMFG e para a defesa do seu lugar
epistemológico e político.
Esta edição especial da revista Cabo dos Trabalhos
reúne os textos apresentados pelas alunas do Doutoramento
em Estudos Feministas no colóquio, os quais atravessam
temáticas diversas e urgentes: artivismos e cidadania
visual, cuidados e justiça reprodutiva, teorias queer,
parentalidades, epistemologias feministas, discursos de
ódio, entre muitas outras. Em comum, os trabalhos aqui
publicados partilham o compromisso com a transformação
social, a justiça epistémica e a construção de horizontes
feministas interseccionais, atentos à pluralidade das
opressões e à complexidade das resistências. Juntamente
com estes textos, apresentamos também uma entrevista com
Elżbieta Korolczuk, Professora Associada de sociologia a
trabalhar na Universidade de Södertörn, em Estocolmo, e no
centro de Estudos Americanos da Universidade de Varsóvia.
Korolczuk é especialista em movimentos antigénero e foi a
oradora convidada para o 3º Colóquio Internacional de
Pós-graduação em Estudos Feministas e de Género:
Encruzilhadas e Horizontes, a qual agradecemos imensamente
pela generosidade e disponibilidade de participar desta
publicação.
Daniel Moraes apresenta o ensaio “Preconceito e
Transexualidade: encruzilhadas e horizontes ao
reconhecimento das identidades Trans no Portugal
Contemporâneo”, onde analisa os impactos políticos e
sociais da ideologia TERF em Portugal, refletindo sobre os
desafios ao reconhecimento da autodeterminação das
identidades trans. Dialogando com os eixos críticos desta
edição, o ensaio examina a intensificação dos discursos de
ódio e das narrativas antigénero no espaço mediático,
especialmente após a promulgação da Lei n.º 38/2018. A
partir da análise de conteúdos digitais entre 2018 e 2023,
o texto contribui para pensar as encruzilhadas dos Estudos
Feministas e de Género, reafirmando horizontes
interseccionais e inclusivos.
Fabrina Martinez propõe uma reflexão sobre maternidade e
luto como lugares de elaboração subjetiva e epistémica em
“Matar a mãe: as palavras como rito de morte em Simone de
Beauvoir e Annie Ernaux”, convocando os saberes
localizados como ferramenta crítica e afetiva. A partir da
leitura da obra Não saí da minha noite, de Annie
Ernaux, a autora analisa como a escrita autobiográfica de
mulheres pode operar como rito de passagem e revelação do
indizível, questionando fronteiras entre vida, perda e
representação. O ensaio dialoga com os debates centrais
desta edição ao problematizar as margens da experiência e
da linguagem, contribuindo para pensar os modos como as
narrativas feministas e literárias disputam sentidos,
constroem memória e afirmam resistências.
Isabeli Santiago examina criticamente a cidade como
espaço simbólico e material onde operam sistemas de
opressão, com destaque para o patriarcado em “Reescrever a
paisagem – Uma contra-proposta feminista para repensar a
memória coletiva a partir da cultura visual urbana: o caso
da cidade do Porto”. A partir de uma análise da paisagem
urbana do Porto — incluindo topónimos, arte pública,
monumentos e sinalética — e com base em epistemologias
feministas e metodologias transdisciplinares, o ensaio
investiga a presença (ou ausência) da memória das mulheres
no espaço público. Ao propor estratégias de resistência
como o Tour Feminista, o texto reivindicar a cidade como
território de disputa, reescrita e reconfiguração
feminista, contribuindo para a construção de horizontes
políticos mais justos e inclusivos.
Na sequência das reflexões sobre espaço e expressão
simbólica, Iuri Lopes propõe uma reflexão situada sobre a
presença do corpo na performance artística enquanto forma
de resistência e subversão das normas de género em “Sobre
nós por nós: movimentações não binárias entre as teorias
transfeministas”. A partir de práticas que atravessam o
artivismo e a criação visual contemporânea, a autora
explora como o corpo, sobretudo o corpo dissidente, pode
ser mobilizado como dispositivo crítico, político e
estético. Fundamentado em epistemologias feministas e
queer, o ensaio contribui para esta edição especial ao
desafiar as fronteiras entre arte e ativismo, convocando o
sensível como linguagem de denúncia, memória e reinvenção
nas lutas contra a cisheteronormatividade e outras formas
de opressão.
Lucie Fortuin propõe uma análise original sobre o sono e
a exaustão a partir de uma perspetiva feminista, queer e
crip, desafiando a marginalização desses temas nos estudos
da deficiência no ensaio “Sujeitos Adormecidos, Textos
Exaustos: Uma Leitura Crip do Sono e da Exaustão”.
Ancorado em epistemologias situadas e em narrativas
pessoais de doença, o ensaio investiga como o sono —
frequentemente despolitizado — pode ser entendido como
campo de resistência e crítica ao neoliberalismo. Através
da leitura de The Undying, de Anne Boyer, e de
ensaios da coletânea Crip Authorship, o trabalho
contribui para a desestabilizar lógicas normativas de
produtividade, conhecimento e corporeidade, afirmando
horizontes interseccionais e anticapacitistas nos Estudos
Feministas e de Género.
Marcela Oliveira apresenta “Análise da Lei 11.645/2008 a
partir do feminismo decolonial” interrogando as estruturas
de poder que sustentam a hegemonia eurocêntrica na
educação. Ao destacar a importância da inclusão da
história e cultura afro-brasileira e indígena no currículo
escolar, o ensaio denuncia o epistemicídio racial e a
marginalização sistemática dos saberes de mulheres negras
e indígenas. Ancorado em pedagogias críticas e
interseccionais, o trabalho converge com os objetivos
desta edição especial ao reivindicar uma educação
decolonial, inclusiva e antirracista, que reconheça a
pluralidade dos saberes e contribua para a transformação
social a partir das margens.
Mariacristina Migliore escreve “Subversões da
feminilidade na literatura de Cassandra Rios” revisitando
a obra literária de Rios sob uma perspetiva crítica
feminista e queer, destacando a subversão das normas de
género e sexualidade na literatura brasileira durante o
regime ditatorial. Ao explorar a representação de
sexualidades dissidentes e a desconstrução da feminilidade
hegemónica, o ensaio evidencia como a escrita de Rios
desafia os padrões cisheteropatriarcais e reivindica novas
possibilidades de existência feminina. Inserido nas
preocupações desta edição especial, o texto contribui para
o alargamento das epistemologias feministas ao reconhecer
a literatura como campo de resistência e denúncia, onde
vozes historicamente silenciadas afirmam a pluralidade das
identidades e afetos.
Já Marina Faria investiga as intersecções entre
imigração, deficiência e exclusão social a partir do uso
de álbuns de família como ferramenta metodológica e
afetiva em “Imigração e Capacitismo: A Potência dos Álbuns
de Família para Contar Trajetórias”. Focado em mulheres
imigrantes em Portugal, mães de filhos e filhas com
deficiência, o ensaio propõe uma abordagem inovadora que
valoriza as imagens como recurso para resgatar memórias,
revelar experiências de capacitismo e refletir sobre
dinâmicas de pertencimento. Ao iluminar dimensões
invisibilizadas do cuidado e da exclusão, o trabalho
dialoga diretamente com os compromissos desta edição
especial, ao articular epistemologias feministas
interseccionais e estratégias de investigação que
questionam modelos tradicionais de produção de
conhecimento.
Neste momento de encruzilhada histórica e política,
reafirmamos com esta edição o papel fundamental dos
Estudos Feministas e de Género na produção de conhecimento
crítico e na defesa de uma democracia substantiva,
inclusiva e igualitária. Os ensaios aqui reunidos
demonstram a vitalidade e a potência transformadora das
abordagens feministas, queer, decoloniais, Crip e
interseccionais ao enfrentarem discursos de ódio, práticas
de silenciamento e formas múltiplas de exclusão. Entre
debates sobre políticas públicas, pedagogias críticas,
arte e literatura, cidade e memória, cuidado e
dissidência, os textos revelam como a investigação
académica pode ser atravessada pela escuta, pelo afeto e
pela resistência.
Esta edição é, por isso, não apenas um registo das lutas
em curso, mas também uma convocatória à imaginação
política e à construção coletiva de horizontes feministas
que afirmem, com coragem, outras formas de viver, conhecer
e transformar o mundo. Que este número inspire a
continuidade das lutas e fomente a criação de futuros
possíveis, teimosamente comprometidos com a justiça, a
dignidade e a liberdade.
Gonçalo Cholant
Mariacristina Migliore
Marina Faria
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